quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Carta Que Jamais Enviarei...

Eu deveria ter te dito tudo o que digo agora há mais ou menos um ano atrás. De fato, faltou-me a coragem e a insensatez que me possuiu há quatro anos atrás, quando tornei a procurá-lo e confessei por você meu amor imorredouro, que resistira ao tempo, aos desencontros, a um compromisso.
Justamente por isso acovardei-me. Como eu poderia explicar que, simplesmente, acordei um belo dia, cansada e frustrada de inúmeras esperanças frustradas, para descobrir que aquele a quem pensei amar nada mais me causava do que imenso aborrecimento e tédio? De que cheguei à conclusão de que, por um equívoco, estava prestes a jogar fora a chance mais real de felicidade, que sempre estivera ali, bem diante dos meus olhos, tudo isso por uma ilusão?
Você foi minha paixão de adolescência. Hoje nem ouso dizer amor. Acho mesmo que cheguei a amar outra pessoa mais do que amei a você nesta fase. Mas você foi a loucura, a diversão, a paixão avassaladora e dominadora...
Eu queria amá-lo 1/3 do que eu imaginei ter amado. Mas hoje sei que com o tempo e a distância e a dura realidade de um relacionamento estável a dois, passei a amar mais o ideal e as boas recordações do que a pessoa. Com o tempo os defeitos se tornam tão distantes, e só nos lembramos dos bons momentos, das qualidades. E é tão injusto comparar a pessoa REAL que está conosco naquele instante com esse ser idealizado, ela sempre parecerá tão cheia de falhas e tão pálida na comparação! Foi tão fácil me deixar iludir por minhas lembranças e esquecer as razões que, outrora, haviam levado nosso relacionamento ao fracasso...
Assim, disposta a abandonar o que havia de mais concreto na minha vida, fiz planos de continuar do ponto onde havíamos parado. Relacionamento à distância, novamente. Mas dessa vez seria diferente, e encontraríamos uma maneira de ficarmos juntos, não é?
Não. Anos e anos passaram e nunca era possível, nunca! Não conseguíamos sequer marcar uma viagem de final de semana, quem dirá ficar juntos. Isso era decepcionante demais. Minha vida aqui aproximou-se do inferno, mas de todas as pessoas, você era quem menos poderia me ajudar. Houve momentos em que eu só queria desaparecer, morrer...
Mas àquele a quem eu estava deixando de lado por sua causa estava, à sua maneira, sempre pronto para me ajudar. Ele me magoou mais do que posso descrever. Não possui metade do seu caráter ou honestidade. Mas SEMPRE foi leal. E sempre me estendeu a mão nos momentos mais críticos. E se eu pedisse a lua, ele me daria, nem que isso demorasse vinte anos. Já você... Nem sempre estava presente, nem sempre estava realmente ouvindo.
Então comecei a relembrar dos ses defeitos... Possessividade o pior deles, quando, na realidade, você nada podia me cobrar. E sua constante demanda por atenção. E sua falta de ambição na vida. E o pior... Descobri que eu havia mudado. Que seu lado 'brincalhão' e 'carentão' me irritavam mais do que divertiam. Era como se 10 anos tivessem passado para mim e você tivesse permanecido num limbo, intocado pelo tempo, e então tivéssemos nos reencontrado. Fui sincera e expus isso. Você pareceu entender mas pediu uma chance, sem compromissos. Acho que acabei permitindo que você tivesse esperanças. Eis aí meu erro.
Eu me tornava cada vez mais impaciente e até áspera com você; um belo dia acordei e me disse: 'o que eu quase fiz com minha vida?' . Nunca acreditei em destino, mas nesse momento, agradeci aos céus por nossos planos terem fracassado. Aceitei dar mais uma chance para aquele que sempre esteve ao meu lado, e de tão irritada, nem me dei ao trabalho de te dizer isso. Essa nova chance mudou para sempre minha vida, tornando definitivamente impossível que viéssemos a cogitar qualquer coisa.
Pensando em te poupar o sofrimento, decidi nada dizer. Vivemos longe um do outro, e como dizem, o que os olhos não vêem, o coração não sente. Decidi apenas dexar-te em paz e ir me afastando aos poucos. Mas o que me aconteceu é um motivo de orgulho que jamais ousaria esconder, e, embora jamais tenhamos mencionado isso um ao outro, sei que você já deve imaginar que agora sou mãe.
Mas você jamais se mostrou desolado por minha ausência. Talvez você também tenha descoberto que não me amava como julgara amar. Assim, não há sentimentos para magoar. De qualquer forma, aprecio sua atitude de ter entendido o significado de meu silêncio e não me pressionar. Não que eu me sentisse culpada. Nunca tivemos nada de fato e jamais lhe devi explicações. Ou que me arrependesse do que me levou ao maior tesouro que uma pessoa pode ter. Mas eu me sentiria mal colocando tudo isso em palavras e provavelmente, magoando você.
É tão estranho como sequer consigo sentir saudades... Nem mesmo da sua amizade, que eu prezava acima de tudo. É quase como se não tivéssemos nos conhecido, tudo tão frio e distante. Como se fosse uma outra vida... E talvez tenha sido. Acho que nasci para o mundo de outra forma depois de me tornar mãe. Nada tem a mesma importância de antes.
Não quero o seu mal, pelo contrário. Mas estaria mentindo se dissesse que perco noites de sono pensando no seu destino, ou que passo horas do dia preocupada com seu bem estar. Não te amo, não te odeio, apenas gosto de você como gosto de tantas outras pessoas. Isso é cruel, eu sei. Mais uma razão para manter esses pensamentos para mim.
Soube que você estava aqui perto, depois de mais ou menos sete anos. E não senti nada, talvez uma ligeira curiosidade de saber o que realmente o trouxe. Mas até a curiosidade passou depressa.
Tudo isso é insensível, para não dizer cruel, eu sei. Mais uma justificativa para eu jamais ter dito (ou escrito) essas palavras diretamente a você. Mas por alguma razão, hoje elas ficaram presas em minha mente e eu precisava trazê-las à vida. E assim o fiz.
Te desejo o melhor que você puder conseguir. Desejo que me esqueças, que encontre alguém cuja mente (e idade) estejam mais próximas de você (ao menos da sua idade mental...) e que faça seja lá o que lhe der prazer.
Sou alguém do seu passado que agora ficará em seu devido lugar... No passado.
Quanto a esta carta... Jamais receberás de mim. Talvez você a encontre por acaso na web. Diga-me covarde, mas não posso enviá-la. Por que? Não sei. Talvez me preocupe mais com seus sentimentos do que eu possa imaginar. Só posso afirmar que o que está escrito aqui é sincero, a pura verdade, e que isso, nada poderá mudar.